A palavra ansiedade parece ter se tornado parte do nosso vocabulário cotidiano.
“Estou ansioso.”
“Minha ansiedade aumentou.”
“Essa situação me dá ansiedade.”
“Preciso aprender a controlar minha ansiedade.”
Falamos sobre ansiedade no trabalho, nas relações, nas escolas, nas redes sociais e nos consultórios. Ela aparece em livros, vídeos, podcasts e conversas entre amigos.
Diante dessa presença tão marcante, uma pergunta parece inevitável:
A resposta não é tão simples.
Nas últimas quatro décadas, o mundo mudou profundamente. Transformaram-se as relações de trabalho, as configurações familiares, as formas de comunicação, nossa relação com o tempo, a tecnologia e até a maneira como nos relacionamos com nós mesmos.
A ansiedade também ganhou maior visibilidade, passou a ser mais reconhecida e deixou, progressivamente, de ser um assunto restrito aos consultórios.
Mas compreender o aumento contemporâneo da ansiedade exige diferenciar três fenômenos: sentir ansiedade, vivenciar sofrimento relacionado à ansiedade e apresentar um transtorno de ansiedade.
A ansiedade é uma experiência humana muito anterior aos smartphones, às redes sociais ou à velocidade da vida atual.
Do ponto de vista psicológico e biológico, ela desempenha uma importante função adaptativa.
Diante da percepção de ameaça, incerteza ou perigo, nosso organismo mobiliza recursos para responder à situação. A atenção aumenta, o corpo se prepara para agir e passamos a antecipar possíveis acontecimentos.
Em determinadas circunstâncias, portanto, sentir ansiedade não apenas é esperado como pode ser necessário.
A ansiedade pode nos ajudar a preparar uma apresentação, estudar para uma prova, organizar uma viagem, responder a uma situação de risco ou antecipar as consequências de uma decisão.
O problema não está simplesmente em sentir ansiedade.
Ele aparece quando sua intensidade, frequência ou persistência se tornam desproporcionais à situação vivenciada e começam a produzir sofrimento significativo ou prejuízos à vida cotidiana.
É nesse ponto que precisamos diferenciar a ansiedade enquanto emoção humana dos transtornos de ansiedade enquanto condições clínicas.
Se voltássemos à década de 1980, encontraríamos uma experiência cotidiana bastante diferente.
Não existiam smartphones.
A internet ainda não fazia parte da vida das pessoas.
Não havia redes sociais.
O trabalho, para grande parte da população, terminava de maneira mais concreta quando se deixava o ambiente profissional.
Uma mensagem podia esperar.
Uma fotografia registrava um momento sem necessariamente transformá-lo em conteúdo.
As notícias tinham horários mais delimitados para chegar até nós.
Isso não significa que as pessoas viviam melhor ou possuíam maior saúde mental.
Os anos 1980 e 1990 também foram atravessados por guerras, crises econômicas, violência, desigualdades, epidemias, instabilidade política, desemprego e inúmeros outros fatores capazes de produzir sofrimento.
Além disso, muitos problemas de saúde mental eram menos reconhecidos, menos diagnosticados e frequentemente silenciados pelo estigma.
Por isso, seria impreciso romantizar o passado.
Talvez não tenhamos saído de uma sociedade tranquila para uma sociedade ansiosa. Mudaram, sobretudo, as condições nas quais nossa ansiedade é produzida, experimentada, nomeada e compartilhada.
Uma das transformações mais profundas das últimas décadas talvez esteja relacionada à nossa experiência do tempo.
Durante boa parte do século XX, esperar fazia parte da vida cotidiana.
Esperávamos uma carta.
Uma ligação.
Uma resposta profissional.
Uma fotografia ser revelada.
O próximo episódio de uma série.
O horário do jornal.
Hoje, grande parte dessas esperas desapareceu.
Informações, entretenimento, compras, serviços e comunicação estão disponíveis quase imediatamente.
Mas a velocidade trouxe consigo outra expectativa: a disponibilidade permanente.
Podemos receber uma mensagem profissional à noite.
Responder a um e-mail durante as férias.
Acompanhar notícias durante todo o dia.
Comparar nossa vida à de centenas de pessoas antes mesmo de sair da cama.
O mundo contemporâneo ampliou extraordinariamente nosso acesso à informação e às pessoas. Ao mesmo tempo, tornou mais tênues as fronteiras entre trabalho e descanso, público e privado, presença e disponibilidade.
A ansiedade possui uma relação particular com o futuro.
Ela frequentemente se organiza em torno da antecipação:
“E se acontecer?”
E se eu perder meu emprego?
E se essa relação terminar?
E se eu adoecer?
E se eu não conseguir?
E se eu fizer a escolha errada?
E se algo acontecer com quem amo?
Antecipar possibilidades faz parte da capacidade humana.
O desafio contemporâneo é que nunca tivemos acesso a tantas possibilidades — e também a tantas ameaças — simultaneamente.
Em poucos minutos, podemos receber informações sobre guerras, mudanças climáticas, crises econômicas, violência, doenças e acontecimentos ocorridos a milhares de quilômetros de distância.
Nosso cérebro continua sendo humano.
Mas o volume de estímulos ao qual ele pode ser exposto ao longo de um único dia mudou profundamente.
Outra transformação importante ocorreu em nossa relação com produtividade e desempenho.
Não basta trabalhar.
É preciso crescer profissionalmente.
Não basta cuidar da saúde.
É preciso ter uma rotina ideal.
Não basta descansar.
É preciso “aproveitar” o descanso.
Não basta viver uma experiência.
Existe, muitas vezes, a expectativa de registrá-la, compartilhá-la e demonstrar que ela foi significativa.
O desempenho ultrapassou os limites do trabalho e alcançou outras dimensões da vida.
Corpo, carreira, relacionamentos, maternidade, paternidade, lazer e até o autocuidado podem ser atravessados pela sensação de que precisamos fazer melhor.
Nesse contexto, a pergunta deixa de ser apenas:
“Estou bem?”
e pode se transformar em:
“Estou fazendo o suficiente?”
A comparação social sempre existiu, mas as tecnologias digitais ampliaram radicalmente sua escala. Hoje podemos comparar nossa aparência, carreira, relações, viagens e conquistas com pessoas que sequer conhecemos — inúmeras vezes ao dia.
As últimas décadas produziram uma das maiores expansões da comunicação da história humana.
Nunca foi tão fácil encontrar alguém.
E, paradoxalmente, a facilidade de estar conectado não garante a experiência de estar verdadeiramente acompanhado.
Podemos trocar centenas de mensagens e ainda sentir solidão.
Podemos ter milhares de seguidores e poucas relações nas quais nos sentimos seguros para demonstrar vulnerabilidade.
Podemos acompanhar diariamente a vida de muitas pessoas e ainda experimentar a sensação de que estamos ficando para trás.
Isso não significa que a tecnologia ou as redes sociais sejam, por si mesmas, responsáveis pelos transtornos de ansiedade.
Essa seria uma simplificação.
A relação entre tecnologia, comportamento e saúde mental é complexa e depende de fatores como idade, vulnerabilidades individuais, contexto, padrão e intensidade de uso.
A questão talvez não seja simplesmente quanto tempo estamos conectados, mas também como nos relacionamos com aquilo que encontramos quando estamos conectados.
Os dados ajudam a tornar essa discussão mais cuidadosa.
Uma análise baseada no Global Burden of Disease Study 2019 estimou aproximadamente 301 milhões de pessoas vivendo com transtornos de ansiedade no mundo em 2019 (Yang et al., 2021).
Entre 1990 e 2019, o número absoluto de casos prevalentes aumentou cerca de 50%. Entretanto, quando os pesquisadores ajustaram os dados considerando mudanças demográficas e idade da população, a carga global padronizada dos transtornos de ansiedade permaneceu relativamente estável durante grande parte desse período (Yang et al., 2021).
Isso produz uma distinção importante.
Existem hoje muito mais pessoas vivendo com transtornos de ansiedade, mas isso não significa automaticamente que cada indivíduo contemporâneo tenha uma probabilidade 50% maior de desenvolver um transtorno do que alguém que vivia em 1990.
Crescimento populacional, mudanças demográficas, maior reconhecimento dos transtornos e diferenças entre países precisam ser considerados.
Dados mais recentes, utilizando estimativas do Global Burden of Disease 2021, entretanto, identificam uma tendência global de crescimento da carga dos transtornos de ansiedade, com importantes diferenças entre regiões, idades e gerações (Zhou et al., 2025).
A história, portanto, não é linear.
Se havia uma ruptura particularmente importante nessa trajetória, ela ocorreu em 2020.
A pandemia de COVID-19 reuniu diversos fatores associados ao sofrimento psicológico: medo de adoecer, mortes, luto, isolamento social, insegurança financeira, interrupção das rotinas, sobrecarga familiar e profissional e incerteza prolongada.
A Organização Mundial da Saúde estimou que, no primeiro ano da pandemia, houve um aumento global de aproximadamente 25% na prevalência de ansiedade e depressão (Organização Mundial da Saúde, 2022).
A pandemia não criou a ansiedade.
Mas intensificou vulnerabilidades já existentes e tornou ainda mais evidente a importância da saúde mental para indivíduos, famílias, organizações e sistemas de saúde.
E o Brasil?
O Brasil merece atenção particular quando falamos de ansiedade.
Estudos internacionais baseados no Global Burden of Disease colocam o país entre aqueles que apresentam elevada carga de transtornos de ansiedade.
Análise publicada em 2025, considerando dados de 1992 a 2021, posicionou Brasil, Portugal, Líbano, Irã e Paraguai entre os países com os maiores indicadores padronizados de incidência, prevalência e anos vividos com incapacidade relacionados aos transtornos de ansiedade (Zhou et al., 2025).
Esses dados precisam ser interpretados considerando fatores sociais, econômicos, culturais e relacionados ao acesso à saúde.
Ainda assim, reforçam que falar sobre ansiedade no Brasil não é apenas acompanhar uma tendência de comportamento ou uma palavra popular nas redes sociais.
É também discutir uma questão relevante de saúde pública.
Talvez estejamos mais ansiosos — e também mais capazes de reconhecer a ansiedade
Há outro elemento importante nessa história.
Há quarenta anos, muitas pessoas sentiam ansiedade sem nomeá-la dessa forma.
Podiam falar em “nervosismo”, “fraqueza”, “estresse”, “problemas dos nervos”, “preocupação excessiva” ou simplesmente permanecer em silêncio.
A ampliação do conhecimento sobre saúde mental trouxe benefícios importantes.
Hoje conseguimos reconhecer experiências que anteriormente podiam permanecer invisíveis.
Mais pessoas conhecem palavras como ansiedade, depressão, pânico e psicoterapia.
Procurar um psicólogo tornou-se socialmente mais aceitável em muitos contextos.
Isso é avanço.
Mas existe também um cuidado necessário.
A popularização do vocabulário psicológico pode fazer com que experiências normais da vida sejam rapidamente interpretadas como sintomas.
Ficar ansioso antes de uma entrevista, preocupar-se diante de uma situação incerta ou sentir medo ao tomar uma decisão importante não significa necessariamente estar adoecido.
A questão clínica envolve intensidade, persistência, sofrimento, contexto e impacto sobre a vida.
Talvez a pergunta precise mudar
Perguntar se somos “a geração mais ansiosa da história” pode produzir uma resposta atraente, mas cientificamente simplista.
Talvez existam perguntas mais interessantes.
Como nossa maneira de viver mudou nas últimas quatro décadas?
Que novas fontes de ansiedade surgiram?
Que antigas fontes permaneceram?
Quanto espaço existe hoje para descanso, silêncio, vínculos e experiências que não precisam produzir resultados?
Como estamos aprendendo a conviver com um mundo permanentemente conectado, acelerado e incerto?
E, principalmente:
Estamos aprendendo a reconhecer quando a ansiedade é uma resposta compreensível à vida e quando ela se transforma em sofrimento que precisa de cuidado?
Talvez uma das mensagens mais importantes sobre saúde mental seja justamente esta:
o objetivo não é viver sem ansiedade.
Uma vida completamente livre de ansiedade não seria necessariamente uma vida mais saudável.
A ansiedade também nos informa que algo importa.
Pode mobilizar cuidado, preparação e proteção.
O trabalho psicológico não consiste necessariamente em eliminar essa experiência, mas pode ajudar a compreender sua função, reconhecer gatilhos, desenvolver recursos para lidar com ela e avaliar quando sua intensidade começa a restringir a vida.
Porque existe uma diferença importante entre sentir ansiedade diante da vida e começar a organizar toda a vida para não sentir ansiedade.
Quando deixamos de fazer escolhas importantes, evitamos relações, oportunidades, lugares ou experiências exclusivamente para não experimentar desconforto, nosso mundo pode começar a diminuir.
E talvez esse seja um ponto fundamental.
Cuidar da ansiedade não significa construir uma vida na qual nada nos desestabilize. Significa desenvolver recursos para que o medo do que pode acontecer amanhã não nos impeça de viver aquilo que está acontecendo hoje.